| Posted: 07 Nov 2010 05:54 AM PST
Era uma vez um garotinho muito levado. Sozinho no bosque, acompanhado apenas por suas ovelhas, decide aprontar uma traquinagem. Ele passa a gritar: "Socorro, socorro! Um lobo está a me atacar!" A população do vilarejo, alarmada e iludida pelo logro, corre desesperada para acudir aquele que grita. Bem, o resto da história você já conhece…. O interessante é observar que, na vida real, diferentemente da fábula, o lobo de verdade nunca aparece, mesmo quando o garotinho se esgoela não no bosque, mas em rede nacional de televisão. A metáfora é boba, ok, mas é que a situação parece piada: hoje, mais uma vez, o programa "Fantástico" dedicará parte do horário nobre mais caro da televisão para falar um "problema" considerado "alarmante". Segue a chamada: "O Fantástico deste domingo mostra uma situação alarmante! É um novo tipo de festa que se espalha pelo Brasil e mistura brinquedos de parque de diversões, música eletrônica e drogas à vontade!
Vários frequentadores dessas festas acabam tendo surtos, alucinações e precisam de atendimento médico urgente! Quantas e quantas vezes já não vimos matérias dedicadas a isso, tentando pintar a cena eletrônica como um antro de perdição em que jovens estudiosos, trabalhadores e de futuro promissor se perdem em meio a uma orgia de drogas e falta de valores morais? E, curiosamente, dessa vez, uma semana antes da maior festa eletrônica do ano. A matéria só passa daqui algumas horas, mas os clichês já são óbvios, e mais uma vez a família brasileira verá o retrato distorcido da cultura eletrônica, definida pela reportagem única e exclusivamente pelas drogas. A generalização e o sensacionalismo, sabemos, é a arma desesperada de um programa que amarga a pior audiência de sua história. Contra chavões, a obviedade. Brigas acontecem (aliás, em escala muito superior) em micaretas, bailes funk, rodeios, shows da Ivete Sangalo que a Rede Globo patrocina. O abuso de drogas existe desde o Neolítico, alguns milênios antes do primeiro "Evolution" ser instalado na Fazenda Maeda e mesmo antes de Derrick May tocar sua primeira nota em um sintetizador. Contudo, o alvo da imbecilização promovida pelos atiradores de elite dos auto-proclamados guardiões da moral continua sendo única e exclusivamente as festas eletrônicas. E, infelizmente, na medida em que o garotinho Zeca Camargo grita lobo, ele continua chamando a atenção das ovelhas e da sociedade, que deve se embrenhar em mais um cruzada em "salvação da juventude". Vocês sabem como funciona a caça às bruxas. Você sabe quais são os argumentos do Quarto Poder. Deve ser um dever de cada um de nós, amantes da cultura eletrônica, lutar contra a imbecilização. Compartilhe com seus amigos e familiares informações sobre sua maravilhosa história, sobre a inovação tecnológica que promove, sobre a profusão de artes sonoras e visuais que estimula, sobre o caleidoscópio de estilos, sobre o vultoso estímulo econômico. Não tenham medo de argumentar contra o Zeca Camargo. Mostre que o retrato pintado pela televisão está muito, mas MUITO longe de corresponder à realidade da nossa riquíssima cultura musical. Sabemos que a (des)informação é antes objeto de consumo imediato que de reflexão, e é aí que argumentos pobres formam consensos ignorantes. E essa atuação da indústria cultural vale para eleição de Collor, para a imposição de hábitos sócio-culturais e para tentar destruir a cena eletrônica. Não nos definimos pelas drogas. Não nos definimos pelo sem-número de falsas e ignóbeis generalizações. A cena eletrônica não é o lobo, e felizmente cada vez mais pessoas percebem que os clichês requentados não definem a cena. Já está na hora de deixar o garotinho sozinho com suas ovelhas e seus berros. - Leia também o texto do João Anzolin, no Rraurl. |
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